Habitats e Espécies

Tipos de Habitat do Anexo I da Directiva 92/43/CEE

91E0 *Florestas aluviais de Alnus glutinosa e Fraxinus excelsior (Alno-Padion, Alnion incanae, Salicion albae)

Os amiais rípícolas são bosques caducifólios, frequentemente densos e sombrios, que, por terem requisitos hídricos muito elevados, estão quase ausentes dos cursos de água temporários com acusado regime torrencial.

Rio Paiva_1214Têm o seu óptimo nos troços médios de rios pouco torrenciais, com águas oligotróficas a mesotróficas e solos siliciosos, e climaticamente estendem-se pelos andares termo a mesotemperado e termo, meso e supramediterrânico.

A estrutura e composição florística das comunidades que integram o tipo de hábitat 91E0* são muito variáveis. Os bosques ripícolas de amieiros são formações arbóreas que podem atingir os 20 m, cerradas, muito sombrias no Verão, com um cortejo arbustivo e lianóide localmente pobres. Podem ocorrer em formações densas, mas em ambientes muito rochosos são abertas, havendo espaço para grande variedade de arbustos, lianas e herbáceas. Estes bosques, relativamente próximos da costa Atlântica, registam elevada variabilidade, por ocorrerem numa grande extensão geográfica. A sua de originalidade e valor paleofitogeográfico elevados advém do facto acolherem plantas comunidades reliquiais paleo-temperadas, correspondentes a climas antigos (temperado, quente e hiper-húmido): Rhododendron ponticum, Laurus nobilis, Prunus lusitanica, Davallia canariensis, Woodwardia radicans ou Culcita macrocarpa.

Todas as suas ocorrências deverão ser objecto de medidas de conservação, pois formam parte do contingente meridional de sua distribuição europeia. Apesar do seu património genético ser muito variável atendendo ao que sucede com outras espécies arbóreas de óptimo temperado e boreal que ocorrem pontualmente nas montanhas ibéricas, os habitats do oeste peninsular são uma variante importante por albergarem espécies de flora e de fauna que são exclusivas.

Espécies do Anexo II da Directiva 92/43/CEE

Margaritifera margaritifera (Linnaeus, 1758)

Margaritifera margaritifera Foto: J. Reis

M. margaritifera é um molusco bivalve filtrador, unisexual ou hermafrodita; os ovos são incubados no interior das 4 brânquias das fêmeas, transformadas em marsúpio, dando origem a larvas ecto-parasitas (gloquídeos) de salmonídeos. É uma espécie longeva que pode viver até aos 190 anos de idade (dados da Russia), alcançam a maturidade sexual aos vinte ou trinta anos (Europa central e do norte). Na Península Ibérica parece não superar os 70 anos de idade. Quando o Verão começa, o macho liberta o esperma que é capturado pela fêmea, realizando-se a fecundação. O modo de reprodução depende da densidade da população, gerando-se elevado número de casos de hermafroditismo quando a densidade populacional é baixa. No final do Outono, as larvas abandonam o peixe hospedeiro deixando-se cair no fundo do curso de água. A sua distribuição restringe-se com a presença de sedimentos finos e lodosos e com uma diminuição da qualidade da água. Ocorre em rios de águas limpas e claras, de correntes não muito fortes, aguas macias, relativamente pobres em cálcio. Parece preferir fundos rochosos-arenosos, com pouco lodo. Os factores ecológicos que influem com espécie de forma clara são: selecção de um hábitat especializado e um número reduzido de espécies de peixes hospedeiros das larvas. É uma espécie que parece preferir zonas de remanso junto às margens dos cursos de água. Em geral, as suas populações estão em regressão acentuada. As causas desta situação são a regressão das populações de peixes hospedeiros ou introdução de peixes exóticos que competem com as espécies autóctones, a poluição orgânica das águas, a modificação dos cursos de água com deposição de detritos no leito e modificação dos caudais por actividades agrícolas ou pela construção barragens e açudes.

Unio tumidiformis (Castro, 1885) (=Unio crassus)

Unio tumidiformis Foto: J. Reis

Unio tumidiformis é uma espécie descrita ainda no séc. XIX mas apenas agora validada, substituindo a designação Unio crassus na Península Ibérica. Embora compartilhe alguns caracteres morfológicos com populações do Centro e Norte da Europa de U. crassus, a sua espécie-irmã em termos geneticos, é claramente distinto de todas as espécies europeias do género Unio. As muitas amostras efectuadas em toda a Península Ibérica, e analisando a distribuição, a morfologia e anatomia e ciclo de vida nas populações de U. tumidiformis, permitem concluir que a espécie está restrita às bacias do Atlântico Sul da Península Ibérica, principalmente à bacia do Guadiana. É uma espécie de pequeno porte, que raramente excede os 5 cm de comprimento, muito rara, pois muitas populações parecem estar representadas apenas por alguns indivíduos. Vive em pequenos cursos de água, enterrado no sedimento fino perto das margens. Parece ser exclusivamente unisexual. As fêmeas com gloquídeos podem ser encontradas entre Março e Julho. Consoante o local de captura de indivíduos, foram identificadas cinco espécies de peixes do género Squalius como hospedeiros para as larvas. A metamorfose ocorre após 10 dias a uma temperatura média de 22°C. Como nem o habitat nem a distribuição dos hospedeiros das suas larvas podem explicar a sua distribuição restrita, a espécie deve certamente a sua origem a uma longa história de isolamento. Unio tumidiformis manterá o estatuto de conservação jurídica reconhecido a U. crassus na Directiva Habitats da União Europeia, mas a sua distribuição muito restrita, a sua raridade e a sensibilidade do seu habitat, sujeito a secas mais frequentes e extremas exigem que seja dada especial atenção à sua conservação.

Oxygastra curtisii (Dale, 1832)

Espécie cuja área de distribuição se restringe ao Mediterrâneo ocidental e ao Norte de África. Apresenta variação intra-específica, mas encontra-se taxonomicamente bem caracterizada.

Oxygastra curtisii Foto: A. Soares

Os adultos surgem desde os finais de Maio a finais de Agosto, preferindo cursos altos de rios e, por vezes, meios mais lênticos. As larvas utilizam fundos lodosos e com areias e pequenas pedras, que utilizam como esconderijo. A duração total do seu ciclo de desenvolvimento parece ser de dois a três anos.

Pode encontrar-se até aos 800 metros de altitude, mas prefere, em geral, baixas altitudes. A área de distribuição é muito reduzida e o tamanho das populações é sempre de poucos indivíduos e isolados. Desconhece-se a tendência da população Portugal, dado não existem estudos sistemáticos sobre odonatos. Todavia, presume-se que é uma espécie especialmente vulnerável a todos factores que possam influir negativamente sobre o seu habitat, nomeadamente alteração da qualidade da água, corte de vegetação ripícola, secas periódicas, etc… Oxygastra curtisii é uma espécie descrita para os SIC “Rio Paiva” e “Costa Sudoeste”.

Gomphus graslinii (Rambur, 1847)

Espécie muito pouco conhecida, provavelmente com baixa especialização trófica. É um predador activo de macroinvertebrados dulceaquícolas. Quanto a requisitos ecológicos, é presumivelmente muito especializada, dada sua raridade (apesar de faltarem estudos).

Gomphus graslinii Foto: A. Soares

A duração total do seu ciclo de desenvolvimento parece ser relativamente longa: três a quatro anos. G. graslinii é uma espécie héliofila que coloniza meios lóticos permanentes, com a presença de água límpidas e bem oxigenadas, em locais até 400 metros de altitude. A área de distribuição conhecida é reduzida. Em geral, o tamanho das suas populações parecer ser de poucos indivíduos. A espécie é rara e está muito localizada. Suspeita-se da sua diminuição. Há que referir que existe um grave desconhecimento do estado de conservação e distribuição em Portugal, assim como sobre a sua biologia e requisitos ecológicos. Ghomphus graslinii é uma espécie descrita para os SIC “Rio Paiva” e “Costa Sudoeste”.

Macromia splendens (Pictet, 1843)

Espécie muito desconhecida ao nível da sua biologia e requisitos ecológicos. Predador activo de macroinvertebrados dulceaquícolas, com provável ausência de especialização na sua dieta.

Macromia splendens Foto: A. Soares

No entanto suspeita-se que se trata de uma espécie altamente especializada no que concerne a requisitos ecológicos, em virtude da sua extrema raridade. As larvas vivem em zonas tranquilas e lodosas de cursos de água de alguma dimensão, geralmente em águas bastante profundas. Os adultos voam de Junho a Julho e nunca são observados longe dos habitats de reprodução. Podem também ocorrer em cursos de água com pouco caudal, mas com presença de agua durante todo o ano. A duração total do seu ciclo de desenvolvimento parece ser de dois a três anos. A área de distribuição conhecida é muito reduzida. O tamanho das populações é muito reduzido, geralmente com poucos indivíduos, considerando que esta é espécie relíquia do Terciário, actualmente muito escassa. Suspeita-se que as populações possam estar a diminuir. Há que referir que existe um grave desconhecimento do estado de conservação e distribuição em Portugal, assim como sobre a sua biologia e requisitos ecológicos. Macromia splendens é uma espécie ocorre comprovadamente no SIC “Costa Sudoeste” e que foi recentemente descrita para o SIC “Montemuro”, sendo expectável que possamos vir constatar a sua presença no SIC “Rio Paiva” e aí aplicar medidas de conservação análogas às que dedicarão a Oxigastra curtisii e a Gomphus graslinii.

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